Câncer de pulmão: quais as causas e como é o tratamento

Especialistas falam sobre a imunoterapia e de que maneira ela pode ajudar no combate aos tumores malignos

"O objetivo da imunoterapia é ajudar os ‘soldados’ de defesa do organismo a agir com mais recursos contra o câncer"
"O objetivo da imunoterapia é ajudar os ‘soldados’ de defesa do organismo a agir com mais recursos contra o câncer" - Shutterstock

por Julia Natulini
Publicado em 10/08/2021 às 14:22
Atualizado às 15:22

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De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), os tumores pulmonares seguem no topo do ranking das doenças oncológicas que mais matam todos os anos. O Instituto Nacional do Câncer (INCA), registrou no Brasil mais de 30 mil diagnósticos da doença neste ano.

Segundo a Dra. Mariana Laloni, oncologista do CPO Oncoclínicas, a maioria dos pacientes com câncer de pulmão apresenta sintomas relacionados ao próprio aparelho respiratório. “Os sinais de alerta são tosse, falta de ar e dor no peito.  

Em outros casos, a pessoa pode perder pesos e sentir fraqueza. Cerca de 15%, o tumor é diagnosticado por acaso, quando o paciente realiza exames por outros motivos. Por isso, a atenção aos primeiros sintomas é essencial para que seja realizado o diagnóstico precoce da doença, o que contribui amplamente para o sucesso do tratamento”, diz.

A médica comenta ainda que existem dois tipos principais de câncer de pulmão: carcinoma de pequenas células e de não pequenas células. “O carcinoma de não pequenas células corresponde a 80 a 85% dos casos e se subdivide em carcinoma epidermóide, adenocarcinoma e carcinoma de grandes células. O tipo mais comum no Brasil e no mundo é o adenocarcinoma e atinge 40% dos doentes”, destaca.

Imunoterapia no combate ao câncer de pulmão e cerebral  
A ciência tem transformado a maneira de tratar diferentes tipos de câncer. E, no caso das neoplasias de pulmão, as alternativas terapêuticas avançam a passos largos, permitindo ao paciente um arsenal poderoso de condutas que podem ser indicadas para o enfrentamento da doença.

Diante deste cenário, estratégias que combinam modalidades de tratamento sistêmico (baseados na adoção de medicações via oral ou intravenosa, como a quimioterapia) e local (radioterapia) podem ser adotadas no início do tratamento para reduzir o tumor antes de uma cirurgia para retirada da parte do pulmão acometido, ou mesmo como tratamento definitivo quando a cirurgia está contraindicada.

A radioterapia isolada também é utilizada algumas vezes para diminuir sintomas como sangramento e dor.  “A indicação do tratamento depende principalmente do estadiamento, subtipo, tamanho e localização do tumor, além do estado geral e comorbidades do paciente”, diz Mariana Laloni. 

Para a especialista, é válido destacar o papel que a imunoterapia exerce no panorama de enfrentamento do câncer de pulmão. Baseado no princípio de que o organismo reconhece o tumor como um corpo estranho desde a sua origem, e de que com o passar do tempo este tumor passa a se “disfarçar” para não ser reconhecido pelo sistema imunológico e então crescer.

“Embora o sistema imune esteja apto a prevenir ou desacelerar o crescimento do câncer, as células cancerígenas sempre dão um jeitinho de driblá-lo e, assim, evitar que sejam destruídas.

O objetivo da imunoterapia é ajudar os ‘soldados’ de defesa do organismo a agir com mais recursos contra o câncer, produzindo uma espécie de super estímulo para que o corpo produza mais células imunes e assim a identificação das células cancerígenas seja facilitada (devolvendo ao corpo a capacidade  de combater a doença de maneira efetiva)”, explica a especialista.

Não é à toa que medicações imunoterápicas vêm conquistando protagonismo no tratamento de tumores de pulmão e de outros tipos de câncer. A abordagem terapêutica tem trazido resultados importantes também para cânceres de bexiga, melanoma, estômago e rim.

A imunoterapia também pode ser utilizada no tratamento contra o câncer cerebral por se tratar de grande desafio para a medicina, uma vez que as chances de cura desse tipo de tumor dependem de fatores, como seu crescimento livre, acometimento de áreas potencialmente nobres do cérebro, disseminação de modo que dificulta a cirurgia e a forma que utiliza o organismo a seu favor, aproveitando-se, inclusive, do sistema imune, do metabolismo e dos nutrientes.

Com o avanço das tecnologias e pesquisas na área, novas terapias para o tratamento de tumores cerebrais vêm surgindo. E a imunoterapia, que está sendo muito utilizada em todo o mundo para o tratamento de uma série de tipos de cânceres, tem sido apontada como uma aposta promissora no combate aos tumores cerebrais.

“A imunoterapia é uma modalidade inovadora de combate ao câncer, já que, ao contrário da quimioterapia e das terapias alvo moleculares não ataca diretamente as células cancerígenas, mas sim confere meios para que o sistema imune reconheça o tumor como um corpo estranho e volte a atacá-lo”, explica o Dr. Gabriel Novaes de Rezende Batistella, médico neurologista e neuro-oncologista, membro da Society for Neuro-Oncology Latin America (SNOLA).

“Engana-se quem acredita que a imunoterapia necessariamente substitui os tratamentos tradicionais. “Essa possibilidade de substituição existe, principalmente em pacientes que apresentam uma grande quantidade de tumores espalhados pelo corpo para diminuir a carga tumoral e assim possibilitar a realização de cirurgias ou radioterapia, que, caso contrário, não poderiam ser empregadas”.

Mas, na maior parte dos casos, as imunoterapias são utilizadas em momentos mais tardios, quando o paciente já passou por uma série de tratamentos, apesar de já ser utilizada como um tratamento de linha de frente para alguns tipos de câncer, como o melanoma, considerado o câncer de pele mais grave que, inclusive, tem mais chance de se espalhar para o cérebro do que a maioria”, afirma o Dr. Gabriel.

“ A imunoterapia não é recomendada para qualquer paciente. “Alguns fatores devem ser levados em consideração antes da recomendação da imunoterapia, incluindo mutações que favorecem o tratamento, o que pode ser investigado através de exames solicitados pelo neuro-oncologista ou oncologista, conhecimento prévio de que a imunoterapia funciona no tumor em questão e gravidade da doença”.

Vale ressaltar que, apesar de já ser amplamente difundida e utilizada, inclusive no Brasil, para o tratamento de uma série de cânceres, a imunoterapia, no caso dos tumores cerebrais, ainda é apenas uma possibilidade promissora. “

A imunoterapia possui indicações ‘agnósticas’, isto é, é indicada independentemente do tipo ou local do tumor desde que possua aspectos genéticos específicos e o cérebro está incluso nesse grupo, comenta o Dr. Gabriel Novaes de Rezende Batistella.

Tabagismo ainda é a principal causa de câncer no pulmão 
O tabagismo continua sendo o maior responsável pelo câncer de pulmão no Brasil e no mundo. Aliás, não apenas deste tipo de tumor: segundo o INCA, 156 mil mortes poderiam ser evitadas anualmente se o tabaco fosse evitado, sendo que cerca de ⅓ destes óbitos são decorrentes de algum tipo de câncer decorrente do hábito de fumar. 

E apesar do Brasil ter sido reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um exemplo no combate ao cigarro - o país tem um dos menores índices de fumantes do mundo, cerca de 10% da população acima de 18 anos, segundo o próprio INCA, os desafios não param de chegar. Um deles, é a chegada dos cigarros eletrônicos e outros dispositivos de vape, que têm conquistado principalmente os jovens.

“Nós vemos novas formas de tabagismo chegando, como o cigarro eletrônico, por exemplo, que tem atraído principalmente os adolescentes, pelo formato, pela novidade e pela falta de informação também sobre o impacto nocivo deles. Então, estamos vendo uma geração que tinha largado o cigarro, voltar para versões digamos, mais modernas, do mesmo mal”, alerta Mariana Laloni.

Parar de fumar, alerta a especialista, é a forma mais eficaz de se prevenir contra o câncer de pulmão e diversos outros tumores, além de doenças cardíacas, doença pulmonar obstrutiva crônica, pneumonia, AVC (acidente vascular cerebral) e complicações severas decorrentes da contaminação pela Covid-19.

Fontes: Dra. Mariana Laloni, oncologista do CPO Oncoclínicas e Dr. Gabriel Novaes de Rezende Batistella, médico neurologista e neuro-oncologista, membro da Society for Neuro-Oncology Latin America (SNOLA).

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