AstraZeneca: por que você deve se vacinar sem medo?

A vacina foi suspensa na União Europeia por suspeitas de relação com casos de trombose entre os pacientes imunizados; especialista comenta o assunto

Não há evidências de que os casos de trombose estejam associados à vacina AstraZeneca
Não há evidências de que os casos de trombose estejam associados à vacina AstraZeneca - Shutterstock

por Juliana Mesquita
Publicado em 19/03/2021 às 12:34
Atualizado às 12:34

COMPARTILHEFacebook Saúde em DiaPinterest Saúde em Dia

A vacina AstraZeneca, que faz parte do programa de imunização contra Covid-19 no Brasil, esteve recentemente envolvida em uma polêmica, por suspeitas de que o imunizante poderia estar relacionado a casos de trombose relatados entre os pacientes vacinados. 

Tudo começou no dia 7 de março, quando a Áustria resolveu suspender o uso da vacina no país para investigação. 

Logo após, países como Dinamarca, Alemanha, Noruega e Itália também deixaram de aplicar o imunizante. 

Segundo a AstraZeneca, até 8 de março, foram relatados 15 eventos de trombose venosa profunda e 22 de embolismo pulmonar entre os mais de 17 milhões de vacinados nos países europeus. No entanto, a investigação da empresa não mostrou relação entre os casos e a aplicação da vacina.

Entendendo a trombose 

Shutterstock 

De acordo com Bruno de Lima Naves, presidente da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular (SBACV), o organismo tem um mecanismo de proteção para coagular o sangue, a fim de impedir que as pessoas morram de hemorragia em uma cirurgia, por exemplo. 

Quando esses coágulos se agrupam, em uma determinada parte do corpo, dá-se o nome de trombose. Na maior parte dos casos, o problema acontece nos membros inferiores. 

“O grande problema na circulação é que esse coágulo sanguíneo ou esse trombo pode se desprender do vaso lá embaixo, vir pela circulação, passar pela barriga e estacionar no pulmão, o que a gente chama de embolia pulmonar”, alerta Bruno. Pacientes que apresentam o problema têm uma alta taxa de mortalidade. 

No entanto, não há provas de que a vacina esteja associada a esses casos. 

“A vacina de Oxford-AstraZeneca e agora, no Brasil, produzida pela Fiocruz, tem se demonstrado, até o momento, uma vacina extremamente segura e eficaz. Essa segurança foi demonstrada em ensaios clínicos de fase I, II e III, com mais de 60 mil participantes, tendo seus dados publicados em revistas científicas reconhecidas internacionalmente”, reforça a Fiocruz em nota.

Os casos de trombose venosa profunda (que acontece em veias mais profundas do corpo) são causadas, geralmente, por trauma, alteração de coagulação (algumas pessoas podem nascer com mais facilidade para formar coágulos) e a imobilização prolongada, ou seja, pessoas que ficam paradas na mesma posição por muito tempo.  Normalmente, o tratamento é feito com o uso de anticoagulantes. 

O médico especialista em angiologia e cirurgia vascular acredita que os eventos relatados entre os pacientes poderiam acontecer, independente da vacina. 

“As primeiras pessoas que tomaram as vacinas foram os idosos, e a idade é um fator de risco. Quanto mais velho, maior a chance de você ter trombose. O segundo fator é a imobilização prolongada. Os idosos têm sido mantidos em casa, ficam parados muito tempo na mesma posição, e essa restrição de mobilidade associada à artrose,  reumatismo e à própria idade, faz com que o idoso tenha uma chance sete ou oito vezes maior de ter trombose do que um jovem”, sugere. 

O médico ainda acredita que os 37 casos de trombose apresentados entre as mais de 17 milhões de pessoas que receberam a vacina não são representativos. “A frequência da trombose nessa população, em particular, é até maior do que esses números”. 

Naves alerta que a Covid-19 é um fator de risco ainda maior para o desenvolvimento da trombose. “É uma doença que causa inflamação na parede do vaso, por isso, a chance do paciente com Covid ter trombose é enorme”, diz. 

Previna o problema! 

Para o especialista, a maioria das doenças é evitável, assim como a trombose. Dessa forma, algumas atitudes precisam ser tomadas, independente da idade:

- O sangue precisa circular, para isso, o corpo necessita de movimento. Bruno utiliza uma métrica simples, a 50/10. A cada 50 minutos sentado na mesma posição, saia para tomar água, ir ao banheiro, movimentar as pernas. A atitude deve ser feita tanto em casa quanto no trabalho. 

- O fumo também é um fator de risco para a trombose. Quando associado ao uso de anticoncepcionais orais, as chances são aumentadas. 

- Praticar atividades físicas faz com que o sangue circule, o que previne a doença.

- Fortalecer a panturrilha é outra indicação do especialista. "Quanto mais eficiente for o músculo da panturrilha, o que nós vasculares chamamos de coração venoso periférico, menor a possibilidade de fazer trombose. 

- Sempre que puder, deite e coloque as pernas para cima. A atitude auxilia para uma melhor circulação. 

- Quando for viajar e tiver que ficar muito tempo em uma mesma posição (acima de 4 horas), use uma meia elástica de compressão 3/4, que favorecerá uma boa circulação.

- Observe o seu histórico familiar: se há vários casos de pessoas com trombose na família, as chances de desenvolvimento do problema são maiores. Nesses casos, adotar os hábitos recomendados por Bruno são ainda mais importantes. 

Para finalizar, o especialista reforça a importância de tomar a vacina e diminuir as chances do desenvolvimento da forma grave da Covid-19.

No Brasil, mais de 3 milhões de pessoas foram imunizadas, até agora, com a vacina AstraZeneca, de acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). 

Além disso, no dia 18 de março, a Agência Europeia de Medicamentos (EMA), responsável pela regulamentação do setor farmacêutico na União Europeia, concluiu também que a vacina é segura e aprovou a manutenção do imunizante. 

Consultoria: Bruno de Lima Naves, presidente da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular (SBACV)