Home office a longo prazo gera alerta para a incidência de doenças; entenda

Segundo especialistas alguns hábitos do trabalho à distância contribuem com o surgimento de alterações físicas e psicológicas

De acordo com especialistas "estresse e fadiga muscular aumentaram durante a pandemia, especialmente no punho e nas mãos"
De acordo com especialistas "estresse e fadiga muscular aumentaram durante a pandemia, especialmente no punho e nas mãos" - Shutterstock

por Redação SD
Publicado em 03/08/2021 às 15:34
Atualizado às 17:30

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O home office tem se tornado o modelo de trabalho mais aderido pela maioria das empresas, uma vez que é considerado prático, reduz custos e durante a pandemia da Covid-19, serviu como umas das maneira de prevenção contra o vírus.

Não é à toa que o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), registrou cerca de 7,3 milhões de brasileiros que trabalham remotamente, com 9,1% da população ocupada e não afastada. 

Apesar da praticidade de ser possível fazer da casa um escritório, esse modelo de trabalho pode causar complicações físicas e mentais envolvendo diversas áreas do corpo.

Para esclarecer o assunto, alguns especialistas do Hospital Santa Catarina – Paulista, levantaram quais são as regiões do corpo que mais sofrem com o home office e os motivos desse tipo de desconforto. 

Visão
A exposição por longos períodos a monitores está entre as principais mudanças de hábitos adotadas no trabalho à distância. Segundo o Dr. Victor Cvintal, oftalmologista do Hospital Santa Catarina - Paulista, essa prática pode levar a determinadas repercussões oculares.

"A utilização dos monitores leva a uma eventual diminuição na frequência do piscar dos olhos e isso pode acarretar uma instabilidade da qualidade de visão", adiciona o Dr. Cvintal. O especialista aponta que este fenômeno diminui a lubrificação dos globos oculares e, por isso, sintomas como a secura e ardor podem surgir como consequência.

Além disso, quando utilizados por períodos prolongados, estes dispositivos podem, até mesmo, alterar determinados aspectos da visão como a capacidade de enxergar de perto e, nas crianças, estimulam a miopia.

Quando o assunto é a prevenção desse desconforto, o especialista recomenda um piscar voluntário ocasional para garantir um nível de lubrificação adequado, além do uso de lubrificantes para estabilizar a lágrima, pausas a cada 20 minutos no trabalho, evitando o uso da visão para perto por 20 segundos, e atividades diárias ao sol.

É importante lembrar que a posição do monitor é fundamental para a saúde ocular: a pessoa deve estar sentada a um braço de distância, com o monitor ligeiramente abaixo da linha dos olhos, e seu brilho não deve competir com a luz ambiente.

Ergonomia e sedentarismo
A falta de atividades físicas e a adoção de determinadas posições inadequadas no trabalho à distância também são fatores que levantam certa preocupação em relação aos cuidados durante o home-office.

O cenário pandêmico eliminou temporariamente a necessidade de locomoção ao trabalho que, para muitos, envolvia breves caminhadas que contribuem para a manutenção do sistema musculoesquelético.

De acordo com o Dr. Renato Sorpreso, ortopedista do Hospital Santa Catarina - Paulista, além da extinção destes pequenos momentos de atividade física, a utilização de ambientes residenciais como escritório gera situações ergonomicamente desfavoráveis. 

"A posição sentada é a mais adotada nos ambientes de trabalho, porém a manutenção prolongada deste hábito ocasiona a adoção de posturas inadequadas e a sobrecarga de determinadas estruturas corporais, o que pode levar à dores no pescoço, lombar, dorsal, braço, antebraço, mãos, entre outras regiões.

Por isso, permanecer sentado por longos períodos trabalhando no computador é uma das principais causas das dores posturais durante o home-office", salienta o especialista. Para prevenir esse possível mal-estar e compensar a falta de exercício, o Dr. Sorpreso recomenda a adoção de uma rotina de atividades físicas na proporção de 5 a 7 dias por semana, acumulando 210 a 400 minutos no período indicado.

Lesões em membros superiores
De acordo com Dr. Adalto Lima, médico coordenador do serviço de cirurgia da mão da Casa de Saúde São José, o número de pacientes com problemas nos membros superiores decorrentes do excessivo volume de trabalho e falta de estrutura adequada ainda é grande, podendo resultar até mesmo em casos cirúrgicos. Segundo ele, houve um aumento significativo, cerca de 40%, na incidência de tendinopatias em membros superiores devido ao home office.

"É fundamental ter uma atenção especial em relação à ergonomia, pois a falta de cuidados gera posições viciosas que afetam a carga tendinosa, causando dor, dormência e perda da capacidade funcional”.  

A pausa para o cafezinho era um momento importante na rotina do escritório, mas isso não acontece no home office, ao contrário, a carga de trabalho tem sido maior e quando há essa pausa, acabamos fazendo alguma tarefa doméstica", explica.

Outra questão que também tem sido frequente nos consultórios é o estresse e fadiga muscular, problema que também aumentou durante a pandemia, especialmente no punho e nas mãos.

De acordo com Lima, a diminuição dos cuidados médicos durante esse período, aliada à redução dos exercícios físicos e ao aumento da ansiedade, geram um estresse e um aumento de esforço, causando o desconforto e a dor.

Como forma de prevenir lesões e até eventuais tratamentos cirúrgicos, o cirurgião da mão recomenda alongamentos, fortalecimento muscular, ajuste nas posições ergonômicas, divisão adequada na carga de trabalho e de funções domésticas e avaliação periódica do médico especialista.

"O ajuste da estação de trabalho é fundamental, assim como a prática de exercícios laborais. Ao surgirem sintomas, não se automedique. Procure um profissional da saúde para avaliação", alerta o médico.

Alimentação
Quando o assunto é a alimentação durante o trabalho à distância, surge um alerta em relação ao consumo excessivo de determinados tipos de carboidrato. Os chamados carboidratos simples, que incluem mel, açúcar, xarope de milho e farinhas são os que mais merecem atenção no dia a dia, pois são práticos e, ao contrário dos carboidratos complexos, não possuem um nível relevante de nutrientes, vitaminas e fibras.

Uma pesquisa conduzida em 2020 pela Fiocruz demonstrou que o consumo de doces e chocolates, que fazem parte deste grupo alimentício, aumentou 63% entre jovens adultos em meio à pandemia.

Segundo o Dr. Ricardo Rienzo, endocrinologista do Hospital Santa Catarina - Paulista, uma das primeiras repercussões da ingestão exacerbada desta categoria alimentícia é o risco de aumento das triglicérides, que contribuem para o armazenamento de energia. "Quando os triglicerídeos se encontram em alto nível no sangue, a probabilidade para o desenvolvimento de doenças cardíacas aumenta", completa o Dr. Rienzo.

Entre as ações que podem ser adotadas para evitar o desenvolvimento de complicações relacionadas a este fenômeno estão a prática de atividades físicas e a manutenção de uma dieta balanceada, garantindo que os carboidratos respondam por, no máximo, 60% das refeições individuais.

No caso dos açúcares, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que estes devem compor 5% das refeições. Segundo o especialista, anotar os hábitos alimentícios pode contribuir para este monitoramento.

Cardiopatias
Vale notar que o sistema cardiovascular também pode ser impactado pelos hábitos desenvolvidos nesta nova modalidade de trabalho e, por isso, os cuidados relacionados ao coração são de extrema relevância neste cenário.

Embora o regime de home office contribua positivamente para evitar a circulação de pessoas na rua em meio à pandemia, a permanência em casa por longos períodos pode levar ao sedentarismo, facilitando a incidência de complicações que geram maior vulnerabilidade frente às cardiopatias.

Para o Dr. Nilton Carneiro, cardiologista, essa inatividade pode levar ao sobrepeso, descontrole dos níveis de pressão arterial, glicemia e colesterol. "Todos estes itens são fatores de risco para desfechos cardiológicos mais graves como infarto, arritmia ou acidente vascular cerebral.

Vale notar que além da falta de exercícios, o trabalho à distância pode causar a mudança de certos hábitos dietéticos que devem ser monitorados, pois o consumo em excesso de determinados alimentos também pode incitar o surgimento de complicações desta natureza", completa.

Em relação à prevenção destas condições, o especialista indica uma rotina organizada, que contemple a prática de atividades físicas e, além disso, uma dieta balanceada, monitorando o consumo de bebida alcoólica e alimentos gordurosos.

O Dr. Carneiro também indica a utilização de recursos digitais para o agendamento de consultas periódicas, por meio da telemedicina, que pode ser utilizada para diversas especialidades, inclusive a Cardiologia.

Saúde mental
Além das repercussões físicas, a permanência no regime de home office por longos períodos, sem atenção para os cuidados adequados, pode facilitar a incidência de comorbidades psicológicas.

A Giovana Rossi, psicóloga, aponta que esse fenômeno causa uma sensação de confinamento e, por isso, é comum que indivíduos submetidos a estas circunstâncias apresentem quadros de estresse agudo.

"Por permanecerem em um único ambiente, acabam trabalhando com uma carga horária superior em comparação com o cenário pré-pandemia, gerando um esgotamento maior.

Muitas pessoas alteram a rotina de sono e alimentação, o que impacta diretamente no estado de saúde física e emocional, e na produção de hormônios que regularizam e geram bem-estar no organismo", adiciona.

Para prevenir estas complicações, a especialista recomenda a manutenção de uma rotina regrada, com foco no equilíbrio entre atividades profissionais e recreativas, além da adoção de estratégias de autocuidado.

"Também é indicado a segmentação de determinados ambientes no espaço residencial, a fim de separar e organizar fisicamente, e mentalmente, as tarefas laborais dos momentos de trabalho, lazer e descanso. Desta forma, torna-se mais simples atingir certa harmonia na hora de investir tempo em atividades distintas", finaliza.

Fontes: Dr. Victor Cvintal, oftalmologista, Dr. Renato Sorpreso, ortopedista, Dr. Adalto Lima, Dr. Ricardo Rienzo, Dr. Nilton Carneiro, cardiologista e Giovana Rossi Lenzi, psicóloga. 

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